Matéria de Capa - Edição 246 – Março de 2003 – Revista Petro & Química
Um exemplo de project finance
Quer aprender como se faz um Project Finance Non Recourses? Olhe o exemplo da Rio Polímeros. O projeto conseguiu captar US$ 650 milhões –do total de US$ 1,08 bilhão investidos– sem aportar garantias reais, mas com um projeto extremamente trabalhado, que envolvia desde a tecnologia de pirólise até os contratos de venda. São financiadores o americano Exim Bank, o italiano Sace e o BNDES – outros US$ 430 milhões são aportados pelos sócios Suzano (33%), Unipar (33%), Petrobras (16,5%) e BNDES (16,5%).

Isso porque, num Project Finance Non Recourses, a única garantia do investidor é o desempenho do projeto. Só que, em caso de insucesso, ninguém quer ficar com uma planta petroquímica em construção, por isso que, para conseguir captar uma quantia dessa, o projeto tem que ser bem trabalhado, com todas as variáveis equacionadas. “O financiador quer que o projeto entre em operação no prazo, que a tecnologia funcione conforme o previsto, que a produção seja aquela prevista, que o mercado também, e que os preços se comportem conforme previsto”, conta Roberto Villa, superintendente da Rio Polímeros.

A primeira peça mitigadora do risco, para o emprestador, é o suprimento de matéria-prima – em volume, tempo e especificação. Porque o financiador quer a garantia do suprimento, pelo menos no período de re-pagamento do empréstimo. Em seguida vem a certeza de que a planta será contruída, dentro do prazo e do orçamento previsto, por isso o contrato com o EPC precisa estar equacionado. “Dentro desse contrato de EPC, algumas características são vitais, como as penalidades pelo não cumprimento de prazos ou de preços, que têm que ser suficientes para que, se forem executadas, o emprestador retome o dinheiro de volta”.

Para a implantação do projeto EPC foi selecionado o Consórcio ABB Lummus / Snamprogetti, no qual a ABB Lummus lidera e responde pelo contrato global, em regime de lump sum - turn key. A Snamprogetti é a empresa credenciada pela ex-Union Carbide para construção e montagem de processos com a tecnologia Unipol.

Não bastasse isso, a Rio Polímeros precisou contratar consultoria internacional para atestar a previsão do mercado de polietileno no Brasil e no mundo, no período 2004-2015. Outro ponto diz respeito às tecnologias adotadas –no caso da Rio Polímeros a Lummus para pirólise e a Univation para polimerização– precisavam ser reconhecidamente competitivas.

Outro contrato, de off take com a tradding Vinmar, serviu como garantia de geração de caixa – e em dólar. Serão 150 mil toneladas durante os primeiros quatro anos de operação, e 100 mil toneladas nos seis anos seguintes. “Você tem que preparar uma massa de informações, que seja de extremo poder de convencimento técnico e financeiro”, conta Villa.

Uma nova matéria-prima no cenário petroquímico nacional

Até o início dos anos 80, a produção nacional não justificava um investimento em um complexo petroquímico que utilizasse o gás natural como matéria prima, e que fosse competitivo. Nesse cenário, três centrais petroquímicas foram construídas, todas baseadas em nafta.

A exploração na Bacia de Campos trouxe novas perspectivas: já no final da década de 1980, não só o volume, mas também os prognósticos da produção permitiram os primeiros estudos de viabilidade de um complexo baseado em gás –o teor de etano contido no gás natural produzido na Bacia de Campos ultrapassa 9%.

Paralelamente, devido a ampliações nas centrais já existentes, o mercado apontava oportunidades na linha de olefinas – principalmente em polietilenos. “O volume de gás justificava, e o mercado apontava para a linha dos polietilenos. Com isso, o projeto teve movimento para sensibilizar os investidores”, conta Villa.

Empreendimento de US$ 1,08 bilhão, a Rio Polímeros contempla a implantação de um complexo industrial destinado à produção de 540 mil toneladas anuais de polietileno linear de baixa densidade e polietileno de alta densidade, a partir de uma carga mista de etano e propano, fornecida pela Petrobras –o contrato foi firmado com base na cotação Mont Belvieu, com validade superior a dez anos.

O primeiro módulo da Unidade de Recuperação de Líquidos e Unidade de Fracionamento de Líquidos já estão em operação – a Unidade de Recuperação, instalada em Cabiúnas, irá separar o metano da corrente e enviar uma “sopa” de 6 mil m³ para a Unidade de Fracionamento, na Reduc, de onde serão fornecidos diariamente 1.050 toneladas de C2 e 850 toneladas de C3 para a Rio Polímeros.

A carga será inicialmente processada em uma unidade de pirólise, dimensionada para produzir 520 mil toneladas anuais de eteno, que será totalmente consumido na unidade de polimerização. Outras 75 mil toneladas de propeno serão comercializados com a Polibrasil, para a produção de polipropileno. “Ao processar o etano e propano, uma certa quantidade de propeno é produzida. Como a Polibrasil está ali do lado, ficou natural o contrato de fornecimento”, conta o superintendente.

Na concepção do Projeto serão ainda gerados outros subprodutos: hidrogênio (10 mil toneladas anuais) e gasolina de pirólise (37 mil toneladas). Metade do hidrogênio será consumido pela própria Rio Polímeros e o restante será repassado para a Reduc, juntamente com a gasolina, que será incorporada ao pool de gasolina da refinaria.

Pré-marketing

Com as fundações já assentadas, o empreendimento atravessa a fase de montagem mecânica. Tudo em dia para iniciar a produção a partir de setembro de 2004. Mas antes disso, a empresa dá seus primeiros passos na área comercial, ganhando mercado antes mesmo da conclusão das obras do pólo. “A partir de março já receberemos carregamento do exterior. Durante 18 meses estaremos fazendo o pré-marketing”.

A Rio Polímeros firmou um contrato com a Braskem, no valor de R$ 300 milhões, para o fornecimento de PEAD e PELBD, que serão utilizadas como pré-marketing – o projeto prevê a comercialização das resinas até o início da atividade operacional da empresa, em setembro do próximo ano.

Acompanhando a fase de pré-marketing, a Rio Polímeros lançou sua marca comercial – RioPol. E também prepara a implantação de um Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Testes de produto para apoio à produção e aos clientes.
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