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Petrobras irá investir, até 2009,
US$ 6,2 bilhões em suas refinarias, como parte de seu planejamento estratégico.
O objetivo é produzir derivados de maior valor e mais adequados às exigências
ambientais, adequar-se ao óleo pesado produzido no país e incrementar
a automação para padrões internacionais.
De acordo com Eider Aquino, diretor gerente de Refino da Petrobras, o
processamento do petróleo nacional – mais pesado e com acidez naftênica
– exige um investimento nas refinarias para alcançar um maior ganho para
a companhia. “Buscamos obter maior nível de rentabilidade com esse petróleo
através da construção de unidades de conversão apropriadas e também aumentar
a qualidade dos derivados, igualando-os aos melhores produtos internacionais”,
conta Eider.
Essa adaptação ao petróleo nacional prevê a construção de novas unidades
de coque e tratamento. “O petróleo nacional gera mais óleo combustível,
exigindo unidades de conversão em produtos mais rentáveis”. Na prática,
isso significará menor produção de óleo combustível – que deverá perder
mercado para o gás natural – e maior produção de gasolina – derivado de
maior valor. A implantação de novas unidades trará um aumento de 50% na
complexidade das refinarias do Sistema Petrobras, elevando de seis para
nove pontos Nelson – indexador utilizado para medir a complexidade de
refinarias.
O benchmarking internacional, no entanto, não considera apenas o Índice
de Nelson, mas sua adequação às condições do petróleo processado e sua
lucratividade. “Considerando as características e a lucratividade, busca-se
um ‘hardware’ adequado para transformar aquele petróleo, o que faz com
que se desenhe a complexidade”, explica o diretor.
A Petrobras adota indicadores internacionais como parâmetro, para medir
a competitividade de suas refinarias em custo, rentabilidade, manutenção
e energia. “Há oito anos, a Petrobras contratou a consultoria Sólomon,
que analisa os indicadores em 132 refinarias da América do Norte e América
Latina. Como as refinarias do Sistema Petrobras estavam afastadas dos
melhores, começamos a trabalhar cada indicador em cada uma das refinarias,
traçando metas, verificando as melhores práticas. O trabalho surtiu efeito,
porque, entre os indicadores analisados, algumas refinarias do Sistema
Petrobras alcançaram os primeiros lugares neste ranking”.
Em custo de refino por exemplo, um dos indicadores analisados pela Sólomon,
uma das refinarias do Sistema – a Petrobras não revela qual – é a primeira
do mundo. “O custo médio de refino da Petrobras está abaixo de um dólar
por barril”, contabiliza Eider. Outro bom indicativo do Sistema Petrobras
é a manutenção: suas refinarias estão entre as cinco melhores do mundo.
A Petrobras não pode divulgar quais são as outras concorrentes e suas
notas nos diversos indicadores porque, apesar de receber uma avaliação
própria, as notas gerais são ranqueadas sem indicativos pela consultoria,
ou seja, a companhia sabe em que colocação está, sua distância em relação
ao primeiro lugar, mas não sabe quem vem à sua frente ou está logo atrás.
Tecnologia em requisitos ambientais
Quase todas as unidades passarão por
modernização, segundo o diretor. “Estamos transformando em unidades modernas,
trazendo para tecnologia de ponta tanto o onsite quanto o offsite (utilidades)
e a manutenção – a Rlam, que recentemente passou por um revamp, está totalmente
nova. Isso sem contar que 80% das refinarias estão automatizadas no estado
da arte”.
A melhoria na qualidade do refino vem acompanhada por investimentos de
US$ 430 milhões em manutenção e infra-estrutura, US$ 306 milhões em preservação
ambiental, e US$ 186 milhões em tecnologia. “A excelência ambiental não
está só no comportamento, mas também no produto que colocamos no mercado.
Aliado às mudanças significativas de cultura e aos investimentos em SMS
e no Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional
– Pegaso, os produtos têm que atender os pré-requisitos ambientais estabelecidos.
Os investimentos na adequação das refinarias visam exatamente transformar
nossa gasolina e nosso diesel em um produto com alta qualidade e baixo
teor de enxofre, com padrão internacional”.
Na refinaria baiana, assim como na Recap, localizada na grande São Paulo,
a Petrobras implantou novas tecnologias de craqueamento catalítico fluido
de resíduo atmosférico, desenvolvidas em seu centro de pesquisas para
o processamento de cargas com até 10% em peso de resíduo de carbono. A
próxima unidade a adotar a tecnologia será a Refap, de Canoas / RS.
Para se ter uma idéia, a meta da Petrobras é reduzir, até 2008, o teor
de enxofre na gasolina brasileira dos atuais 1000 ppm para a faixa de
80 ppm. No diesel metropolitano, o nível de enxofre, que está em 2000
ppm, será reduzido para 50 ppm. “E esse é apenas um dos itens a serem
melhorados no produtos. Para isso buscamos tecnologias adequadas, nas
melhores empresas da Europa e EUA”.
Segundo o diretor, nesses países, ainda que os níveis de enxofre sejam
menores que os registrados no Brasil, os números estipulados pela Petrobras
também só serão alcançados após 2005.
Companhia se compromete a não passar
de 1,8 milhão de barris diários
A Petrobras tem firmado com a Agência
Nacional do Petróleo uma capacidade máxima de refino — 1,8 milhão de barris/dia
até 2005, quando o consumo deverá estar girando em torno de 2,3 milhões
de barris diários. Assim, a ANP quer abrir espaço para a concorrência
– a rigor, hoje a Petrobras detém 98% desse mercado no país.
O aumento na capacidade de algumas refinarias é conseqüência da não utilização
da capacidade total – com as adequadas unidades de conversão, a capacidade
aumenta, mas dentro dos limites combinados.
Comprometida em não ampliar sua capacidade de refino, o caminho da Petrobras
é ampliar em unidades localizadas fora do país, como a refinaria localizada
na Argentina, adquirida na troca de ativos com a Repsol YPF. Depois de
assumir a planta que representa 4% do refino no país, o diretor promete
estudar o quê poderá ser otimizado.
Na Bolívia, a Petrobras tem 70% de duas refinarias – os outros 30% pertencem
à Perez Compac – que processam diariamente 35 mil barris de petróleo,
onde as frações leves são bem aproveitadas quando separadas do gás — que
é enviado pelo Gasbol para o Brasil.
Ainda há plantas no Caribe que atraem a atencão da empresa. O investimento
na aquisição das refinarias faz parte do plano estratégico de refinar
300 mil barris díarios no exterior, em 2005 – metade será de petróleo
produzido no Brasil. Ainda resta à Petrobras participar, de forma minoritária,
na Renor, apenas para viabilizar a construção de uma nova refinaria no
país. “Não podemos ser parceiros de todos”, justifica Eider.
Por outro lado, a Petrobras vem diminuindo aos poucos sua participação
no mercado brasileiro. Além de estender 30% da Refap na troca de ativos
com a Repsol, prepara a mesma estratégia para repassar 30% da Reduc, em
outra aliança. Isso sem contar com a abertura das importações de combustíveis
– ao qual a companhia terá que traçar estratégias para se adaptar. “A
Petrobras reconhece que estas são as leis de um mercado globalizado e
terá que se adaptar. Ainda assim, o refino continua sendo um bom negócio,
já que é onde se agrega valor à empresa”, finaliza Eider.
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Oportunidade para a indústria
Petrobras poderá impulsionar um segmento
industrial que passou os últimos anos praticamente na estagnação. Pelos
dados da companhia, só a indústria naval abocanhará US$ 584 milhões, sem
contar com o montante destinado aos setores de instrumentação (US$ 140
milhões), de caldeiraria (US$ 480 milhões) e tubulação (US$ 745 milhões).
Além da nova estrutura organizacional da Petrobras – que deu status de
Unidades de Negócios às refinarias do Sistema – outra inovação é a metodologia
de aquisição dos equipamentos desenhada pela Diretoria de Serviços da
Petrobras. Como o programa de investimentos envolve esses montantes, a
companhia decidiu redesenhar a regra para as compras: pelo novo modelo,
os fornecedores terão que atender, além dos requisitos legais e econômicos,
à qualificação técnica específica. “Realizamos uma auditoria em dez empresas
do segmento de caldeiraria e observamos que a certificação ISO 9000 não
é suficiente para garantir qualidade do material”, explicou João Carlos
Soares Nunes, gerente executivo de Materiais da Petrobras.
Em função disso, o fornecedor deverá atender a dois ou mais requisitos
técnicos, como tradição de fornecimento, conformidade com normas internacionais,
e aprovação de projeto pela Petrobras.
Segundo João Carlos, os resultados esperados por esse programa de garantia
da qualidade são atender a demanda nos prazos requeridos sem detrimento
da qualidade, e garantir a competitividade entre os fornecedores nacionais
e estrangeiros. “É preciso a participação da indústria nacional: a questão
da logística é fundamental, tanto no aspecto de custo quanto na garantia
de prazo”, explica o gerente.
“A análise da capacitação da indústria nacional aponta a necessidade de
a indústria brasileira se capacitar para atender a demanda decorrente
deste investimento, uma vez que já há queixas quanto a algum grau de dificuldade
e limitação no suprimento nacional de bens e serviços, em particular na
área de caldeiraria”, analisa Maurício Alvarenga, diretor da Organização
Nacional da Indústria de Petróleo – Onip.
O que a Petrobras não quer, segundo João Carlos, é manter baixo o índice
de compras locais – além do risco cambial, a companhia pode acompanhar
o processo de produção se a indústria está instalada no país. Para se
ter uma idéia, dos produtos já adquiridos para esse plano de modernização
de suas refinarias, quatro fornecedores são nacionais, enquanto nove empresas
estrangeiras – mais dois consórcios formados entre nacionais e estrangeiros
– estão fornecendo equipamentos de caldeiraria. “As empresas nacionais
perderam concorrência para a Índia e Itália, no fornecimento de reatores.
Os recursos estão assegurados, mas a Petrobras não pode parar o investimento
e esperar que os fornecedores se mobilizem para atender à demanda”.
O gerente cita como exemplo a década de 80, quando a Petrobras iniciou
suas atividades offshore: os fornecedores adequaram suas instalações,
atendendo 93% da demanda da companhia. “Desafios semelhantes foram vencidos
no passado, e agora demandam atitudes empresariais de quem pretende compartilhar
destes projetos”, finaliza João Carlos.
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