Edição 229 – Agosto de 2001
Petrobras investe na qualidade do refino

Recap: novas tecnologias de craqueamento catalítico fluido

Petrobras irá investir, até 2009, US$ 6,2 bilhões em suas refinarias, como parte de seu planejamento estratégico. O objetivo é produzir derivados de maior valor e mais adequados às exigências ambientais, adequar-se ao óleo pesado produzido no país e incrementar a automação para padrões internacionais.
De acordo com Eider Aquino, diretor gerente de Refino da Petrobras, o processamento do petróleo nacional – mais pesado e com acidez naftênica – exige um investimento nas refinarias para alcançar um maior ganho para a companhia. “Buscamos obter maior nível de rentabilidade com esse petróleo através da construção de unidades de conversão apropriadas e também aumentar a qualidade dos derivados, igualando-os aos melhores produtos internacionais”, conta Eider.
Essa adaptação ao petróleo nacional prevê a construção de novas unidades de coque e tratamento. “O petróleo nacional gera mais óleo combustível, exigindo unidades de conversão em produtos mais rentáveis”. Na prática, isso significará menor produção de óleo combustível – que deverá perder mercado para o gás natural – e maior produção de gasolina – derivado de maior valor. A implantação de novas unidades trará um aumento de 50% na complexidade das refinarias do Sistema Petrobras, elevando de seis para nove pontos Nelson – indexador utilizado para medir a complexidade de refinarias.
O benchmarking internacional, no entanto, não considera apenas o Índice de Nelson, mas sua adequação às condições do petróleo processado e sua lucratividade. “Considerando as características e a lucratividade, busca-se um ‘hardware’ adequado para transformar aquele petróleo, o que faz com que se desenhe a complexidade”, explica o diretor.
A Petrobras adota indicadores internacionais como parâmetro, para medir a competitividade de suas refinarias em custo, rentabilidade, manutenção e energia. “Há oito anos, a Petrobras contratou a consultoria Sólomon, que analisa os indicadores em 132 refinarias da América do Norte e América Latina. Como as refinarias do Sistema Petrobras estavam afastadas dos melhores, começamos a trabalhar cada indicador em cada uma das refinarias, traçando metas, verificando as melhores práticas. O trabalho surtiu efeito, porque, entre os indicadores analisados, algumas refinarias do Sistema Petrobras alcançaram os primeiros lugares neste ranking”.
Em custo de refino por exemplo, um dos indicadores analisados pela Sólomon, uma das refinarias do Sistema – a Petrobras não revela qual – é a primeira do mundo. “O custo médio de refino da Petrobras está abaixo de um dólar por barril”, contabiliza Eider. Outro bom indicativo do Sistema Petrobras é a manutenção: suas refinarias estão entre as cinco melhores do mundo.
A Petrobras não pode divulgar quais são as outras concorrentes e suas notas nos diversos indicadores porque, apesar de receber uma avaliação própria, as notas gerais são ranqueadas sem indicativos pela consultoria, ou seja, a companhia sabe em que colocação está, sua distância em relação ao primeiro lugar, mas não sabe quem vem à sua frente ou está logo atrás.

Tecnologia em requisitos ambientais

Quase todas as unidades passarão por modernização, segundo o diretor. “Estamos transformando em unidades modernas, trazendo para tecnologia de ponta tanto o onsite quanto o offsite (utilidades) e a manutenção – a Rlam, que recentemente passou por um revamp, está totalmente nova. Isso sem contar que 80% das refinarias estão automatizadas no estado da arte”.
A melhoria na qualidade do refino vem acompanhada por investimentos de US$ 430 milhões em manutenção e infra-estrutura, US$ 306 milhões em preservação ambiental, e US$ 186 milhões em tecnologia. “A excelência ambiental não está só no comportamento, mas também no produto que colocamos no mercado. Aliado às mudanças significativas de cultura e aos investimentos em SMS e no Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional – Pegaso, os produtos têm que atender os pré-requisitos ambientais estabelecidos. Os investimentos na adequação das refinarias visam exatamente transformar nossa gasolina e nosso diesel em um produto com alta qualidade e baixo teor de enxofre, com padrão internacional”.
Na refinaria baiana, assim como na Recap, localizada na grande São Paulo, a Petrobras implantou novas tecnologias de craqueamento catalítico fluido de resíduo atmosférico, desenvolvidas em seu centro de pesquisas para o processamento de cargas com até 10% em peso de resíduo de carbono. A próxima unidade a adotar a tecnologia será a Refap, de Canoas / RS.
Para se ter uma idéia, a meta da Petrobras é reduzir, até 2008, o teor de enxofre na gasolina brasileira dos atuais 1000 ppm para a faixa de 80 ppm. No diesel metropolitano, o nível de enxofre, que está em 2000 ppm, será reduzido para 50 ppm. “E esse é apenas um dos itens a serem melhorados no produtos. Para isso buscamos tecnologias adequadas, nas melhores empresas da Europa e EUA”.
Segundo o diretor, nesses países, ainda que os níveis de enxofre sejam menores que os registrados no Brasil, os números estipulados pela Petrobras também só serão alcançados após 2005.

Companhia se compromete a não passar de 1,8 milhão de barris diários

A Petrobras tem firmado com a Agência Nacional do Petróleo uma capacidade máxima de refino — 1,8 milhão de barris/dia até 2005, quando o consumo deverá estar girando em torno de 2,3 milhões de barris diários. Assim, a ANP quer abrir espaço para a concorrência – a rigor, hoje a Petrobras detém 98% desse mercado no país.
O aumento na capacidade de algumas refinarias é conseqüência da não utilização da capacidade total – com as adequadas unidades de conversão, a capacidade aumenta, mas dentro dos limites combinados.
Comprometida em não ampliar sua capacidade de refino, o caminho da Petrobras é ampliar em unidades localizadas fora do país, como a refinaria localizada na Argentina, adquirida na troca de ativos com a Repsol YPF. Depois de assumir a planta que representa 4% do refino no país, o diretor promete estudar o quê poderá ser otimizado.
Na Bolívia, a Petrobras tem 70% de duas refinarias – os outros 30% pertencem à Perez Compac – que processam diariamente 35 mil barris de petróleo, onde as frações leves são bem aproveitadas quando separadas do gás — que é enviado pelo Gasbol para o Brasil.
Ainda há plantas no Caribe que atraem a atencão da empresa. O investimento na aquisição das refinarias faz parte do plano estratégico de refinar 300 mil barris díarios no exterior, em 2005 – metade será de petróleo produzido no Brasil. Ainda resta à Petrobras participar, de forma minoritária, na Renor, apenas para viabilizar a construção de uma nova refinaria no país. “Não podemos ser parceiros de todos”, justifica Eider.
Por outro lado, a Petrobras vem diminuindo aos poucos sua participação no mercado brasileiro. Além de estender 30% da Refap na troca de ativos com a Repsol, prepara a mesma estratégia para repassar 30% da Reduc, em outra aliança. Isso sem contar com a abertura das importações de combustíveis – ao qual a companhia terá que traçar estratégias para se adaptar. “A Petrobras reconhece que estas são as leis de um mercado globalizado e terá que se adaptar. Ainda assim, o refino continua sendo um bom negócio, já que é onde se agrega valor à empresa”, finaliza Eider.

Oportunidade para a indústria

Petrobras poderá impulsionar um segmento industrial que passou os últimos anos praticamente na estagnação. Pelos dados da companhia, só a indústria naval abocanhará US$ 584 milhões, sem contar com o montante destinado aos setores de instrumentação (US$ 140 milhões), de caldeiraria (US$ 480 milhões) e tubulação (US$ 745 milhões).
Além da nova estrutura organizacional da Petrobras – que deu status de Unidades de Negócios às refinarias do Sistema – outra inovação é a metodologia de aquisição dos equipamentos desenhada pela Diretoria de Serviços da Petrobras. Como o programa de investimentos envolve esses montantes, a companhia decidiu redesenhar a regra para as compras: pelo novo modelo, os fornecedores terão que atender, além dos requisitos legais e econômicos, à qualificação técnica específica. “Realizamos uma auditoria em dez empresas do segmento de caldeiraria e observamos que a certificação ISO 9000 não é suficiente para garantir qualidade do material”, explicou João Carlos Soares Nunes, gerente executivo de Materiais da Petrobras.
Em função disso, o fornecedor deverá atender a dois ou mais requisitos técnicos, como tradição de fornecimento, conformidade com normas internacionais, e aprovação de projeto pela Petrobras.
Segundo João Carlos, os resultados esperados por esse programa de garantia da qualidade são atender a demanda nos prazos requeridos sem detrimento da qualidade, e garantir a competitividade entre os fornecedores nacionais e estrangeiros. “É preciso a participação da indústria nacional: a questão da logística é fundamental, tanto no aspecto de custo quanto na garantia de prazo”, explica o gerente.
“A análise da capacitação da indústria nacional aponta a necessidade de a indústria brasileira se capacitar para atender a demanda decorrente deste investimento, uma vez que já há queixas quanto a algum grau de dificuldade e limitação no suprimento nacional de bens e serviços, em particular na área de caldeiraria”, analisa Maurício Alvarenga, diretor da Organização Nacional da Indústria de Petróleo – Onip.
O que a Petrobras não quer, segundo João Carlos, é manter baixo o índice de compras locais – além do risco cambial, a companhia pode acompanhar o processo de produção se a indústria está instalada no país. Para se ter uma idéia, dos produtos já adquiridos para esse plano de modernização de suas refinarias, quatro fornecedores são nacionais, enquanto nove empresas estrangeiras – mais dois consórcios formados entre nacionais e estrangeiros – estão fornecendo equipamentos de caldeiraria. “As empresas nacionais perderam concorrência para a Índia e Itália, no fornecimento de reatores. Os recursos estão assegurados, mas a Petrobras não pode parar o investimento e esperar que os fornecedores se mobilizem para atender à demanda”.
O gerente cita como exemplo a década de 80, quando a Petrobras iniciou suas atividades offshore: os fornecedores adequaram suas instalações, atendendo 93% da demanda da companhia. “Desafios semelhantes foram vencidos no passado, e agora demandam atitudes empresariais de quem pretende compartilhar destes projetos”, finaliza João Carlos.